Começamos este texto após um domingo marcante para o setor canavieiro, no qual pela primeira vez o ONS impôs o courtailment (redução total ou parcial da exportação de energia) para um grande número de usinas, procedimento este necessário em decorrência do excesso de geração renovável num dia com baixo consumo.
Como o courtailment só poderá ser evitado com a instalação maciça de sistemas de armazenamento de energia com baterias (BESS), solução que certamente não ocorrerá no curto prazo, nosso objetivo aqui é indicar nossas impressões e possíveis alternativas para mantermos a cana de açúcar relevante nos processos de associação e de transição energéticas.
Neste mesmo domingo ocorreu a final masculina do torneio de Roland Garros, jogo que durou mais de quatro horas, durante as quais apareceu muito na TV a propaganda de uma empresa que comercializa energia.
Tal propaganda vendia “energia confiável” associada à imagem de uma UHE, e “energia renovável” associada às imagens de parques fotovoltaicos (FV) e eólicos, procurando transmitir à sociedade a noção de que a empresa garante a disponibilidade da energia, mas de que também está comprometida com a transição energética.
Ocorre que o consumidor de energia elétrica para fins industriais e comerciais precisa dar muito mais importância para a sua confiabilidade do que para a sua renovabilidade. O projeto de um novo Data Center (DC) por exemplo, exige disponibilidade de energia elétrica em pelo menos 99,99% do tempo na base anual.
Começamos discorrendo sobre o investimento (Capex) e o custo operacional (Opex) de uma nova planta de geração de energia elétrica. O Capex é definido em R$/kW em função da potência instalada. O Opex é definido em R$/kWh em função do custo para a geração da energia. Em outras palavras, a potência determina o investimento que deve ser pago pela energia gerada ao longo do tempo. Muitas vezes a mídia confunde o público leigo ao não indicar claramente as diferenças entre os valores de potência e de energia das fontes renováveis.
O Opex depende muito do fator de carga (FC) da planta, ou seja, o percentual da potência instalada que é transformada em energia gerada na base anual. Quanto maior o FC, mais rápido o retorno do investimento. UHE com reservatório tem FC na faixa de 70%, parque eólico na faixa de 30% e parque FV na faixa de 20%.
Os lobbies da FV e eólica venderam no Brasil a ilusão de que energia intermitente (com baixo FC) e assíncrona (sem possibilidade de garantir tensão e frequência na rede) poderia ser mais barata do que energia síncrona com FC mais elevado (vide texto da Revista STAB da edição julho/agosto/setembro de 2025 – Transição Energética Realista – Relevância da Cana no Brasil).
Mas na vida real, para cada novo GW instalado de energia intermitente assíncrona a sociedade de providenciar também a instalação de um novo GW de energia síncrona e confiável. Trata-se de energia renovável que não é barata como divulgam os lobbies, e assim o seu custo adicional intrínseco acaba sendo pago pela sociedade, como por exemplo o valor astronômico do último leilão de potência a partir de térmicas a gás natural (GN).
No início deste processo a baixa capacidade de potência renovável instalada ainda podia ser substituída no final do dia pelas UHE’s, mas o preço subsidiado da energia renovável promoveu a instalação maciça de capacidade adicional e chegamos num ponto no qual as UHE’s não tem mais condições de substituir a FV no final do dia sem riscos para a estabilidade do sistema elétrico. As UHE’s não foram projetadas para esta condição operacional de fornecer potência adicional rapidamente. A potência de uma UHE é diretamente proporcional à pressão da água na entrada das turbinas hidráulicas, e a pressão da água depende do nível nos reservatórios. Assim o risco de courtailment aumenta ainda mais no período seco, quando o nível está mais baixo.
A realidade descrita acima indica que no futuro os leilões do MME não mais vão contratar fornecimento de energia, e vão sem dúvida privilegiar o fornecimento de potência e a instalação de armazenamento de energia por meio de BESS.
Acreditamos que o setor canavieiro poderá fornecer potência para o SIN com a utilização de etanol (vide texto da Revista STAB da edição outubro/novembro/dezembro de 2025 – Etanol em Moto Gerador – Consulta Pública LRCAP 2026). O bagaço em sistema de cogeração não é o mais indicado para o fornecimento de potência.
Defronte desta realidade precisamos encontrar outras soluções para que no futuro a cana não perca a sua relevância na transição energética.
Por falar em transição energética, e ao contrário do que propagam os ambientalistas fanáticos e sem embasamento técnico, é importante ressaltar que antes de completarmos a transição energética vamos continuar tendo a fase que denominamos “associação energética”. Esta fase preliminar (mas que ainda vai durar muito tempo) consiste em associarmos gradualmente as fontes renováveis com as fontes fósseis, para tentar reduzir a pegada de carbono mesmo com o crescimento pela demanda de energia provocado por uma humanidade cada vez mais “energívora”, em função da inserção das sociedades mais pobres no mercado da energia, do crescimento do transporte aéreo e marítimo, da instalação maciça de DC’s, entre outros aspectos.
Transições energéticas anteriores levaram muitas gerações para serem concluídas: lenha para carvão, carvão para petróleo, petróleo para nuclear. Em todas estas transições as inovações tecnológicas foram determinantes. A transição energética atual é uma questão de inovação, e no momento não temos condições técnicas de chegar a ela no curto prazo.
Conforme ressalta o cientista canadense Vaclav Smil em seus livros, a nossa civilização está suportada em quatro pilares: cimento, aço, plásticos e amônia. Não haveria cimento sem os fornos que usam hidrocarbonetos. Não haveria aço sem o coque de carvão. Não haveria plásticos sem a petroquímica. Não haveria fertilizantes para a produção de alimentos sem a amônia obtida a partir do GN. A humanidade ainda vai depender das fontes fósseis por muito tempo, até que inovação tecnológica devidamente organizada possa alterar esta realidade.
Na semana posterior ao primeiro courtailment do nosso setor também ocorreu o IPO da empresa SpaceX, que pretende operar DC’s orbitais com energia solar permanente e sem necessidade de água para resfriamento. Um exemplo de inovação tecnológica que poderia acelerar a transição energética.
Fazemos um parêntesis aqui para mencionar que o ambientalismo fanático acima mencionado mais atrapalha do que ajuda na transição energética. No Brasil a restrição para a instalação de novas UHE’s é um caso clássico. É lógico que uma UHE tem impacto ambiental. O fato de a humanidade existir também tem impacto ambiental, a extinção dos mamutes na Eurásia devido à caça predatória é um exemplo típico. Mas o impacto ambiental pela implantação de uma nova UHE é localizado, temporário e controlável. Pode afetar pequenas populações locais, mas favorece todo um país e a humanidade gerando energia renovável e barata por inúmeras décadas. Demonizar as UHE’s é um desserviço para a transição energética!
Voltando ao nosso tema central, e com base no exposto acima, listamos as duas conclusões abaixo:
– No futuro haverá mais demanda de leilões de potência elétrica do que de energia elétrica.
– A humanidade deverá passar pela fase de associação energética antes de atingir a transição energética.
Temos assim que encontrar oportunidades e soluções técnica e economicamente viáveis para estes desafios no Brasil, sempre procurando manter a relevância da cana neste processo.
Durante pelo menos duas décadas a energia contida no bagaço da cana tem sido aproveitada para a exportação de energia elétrica em caráter sazonal. Mas agora, e principalmente com o risco de sofrer courtailment, temos que buscar alternativas. A nossa recomendação é priorizar a utilização da energia térmica do bagaço visando maximizar a produção de etanol a partir do processamento de milho. Trata-se neste caso da associação de duas fontes de energia renovável, cana e milho, praticamente duplicando a produção de etanol sem a necessidade da utilização de cavaco de eucalipto (vide texto da Revista STAB da edição janeiro/fevereiro/março de 2026 – Tendências na Exportação de Energia Elétrica – Impacto das Fontes Renováveis Intermitentes).
O poder calorífico inferior (PCI) do cavaco de eucalipto com 30% de umidade é cerca de 50% maior do que o PCV do bagaço com 50% de umidade. A capacidade média de processamento anual das usinas de cana no Brasil é de aproximadamente 2,5 mmtc, sendo que estas plantas com boa eficiência energética podem obter cerca de 170.000 t de bagaço excedente. O PCI deste bagaço excedente corresponde ao PCI de cerca de 113.000 t de cavaco de madeira que deixam de ser utilizadas. Uma considerável redução na pegada de carbono, já que o bagaço é um resíduo, mas o eucalipto não. Além disso, o bagaço excedente utilizado para a geração de energia elétrica, em um ciclo termodinâmico com eficiência na faixa de 27%, passa a ser utilizado em um ciclo de cogeração com eficiência na faixa de 65%. Mais redução na pegada de carbono!
O aumento de demanda de energia térmica com o processamento de milho poderia viabilizar a utilização de parte da palha de cana. Um aspecto a ser estudado caso a caso, principalmente quando o setor agronômico da empresa eventualmente recomendar a remoção parcial da palha no campo.
O setor canavieiro tem no momento a estimativa de ter o potencial de produção de cerca de 60% de todo o biogás que poderia ser produzido no Brasil. Este fato naturalmente favorece a associação energética com o GN, sendo neste caso uma associação de fonte fóssil com fonte renovável, como já ocorre com a gasolina e o etanol.
Assim como o bagaço, o biogás não tem viabilidade econômica para a exportação de energia elétrica com os preços atuais subvertidos pelas fontes intermitentes. Mas o biogás contem cerca de 60% de biometano que pode sim competir com o óleo diesel nas operações de CTT e em frotas cativas para o transporte pesado.
Naturalmente o biometano terá maior competitividade quando for diretamente misturado ao GN em gasodutos que estejam próximos das usinas. Quando não for o caso, o biogás poderá também ser usado como fonte de energia térmica para aumentar ainda mais o processamento de milho em associação com a cana, também com a utilização de ciclos termodinâmicos com cogeração (vide texto da Revista STAB da edição julho/agosto/setembro de 2021 – Cogeração nas Usinas com Biogás).
Lembramos que no estágio tecnológico atual as baterias elétricas tem uma densidade energética que corresponde a frações da densidade energética do óleo diesel. Enquanto esta realidade prevalecer, o etanol será sempre uma excelente alternativa para reduzir a pegada de carbono no transporte pesado de longa distância, principalmente aéreo (SAF) e marítimo (hidrogênio de baixo carbono). Uma excelente oportunidade.
Para finalizar, ressaltamos que o courtailment veio para ficar, não existem providências de curto prazo para evitar este grande problema que interfere diretamente nas receitas das usinas, inclusive receitas relativas a contratos de longo prazo que devem ser respeitados.
Para enfrentar este enorme desafio, é indispensável que as usinas tenham sistemas de redução e de condicionamento de vapor motriz bem dimensionados para poder zerar a exportação de energia sem redução na moagem de cana. Com esta providência, haverá redução na exportação de energia elétrica, mas pelo menos o coutailment não vai interferir no ritmo de moagem. Este risco aumenta no período seco, justamente quando as usinas processam cana mais rica.
Conteúdo por Celso Procknor
Transição Energética passa pela Associação Energética
